Seja Bem Vindo


 

 

Walmir Barros

 

Leitura em Movimento

Ótima oportunidade de empregos

Parte I

País nada sério precisa de: presidente, senadores, deputados federais, deputados estaduais e governadores: As vagas deverão ser preenchidas depois de outubro de 2010. Oferecem-se ótimos salários fixos, boas “comissões” e infindáveis vantagens: como viagens nacionais e internacionais, serviço com tudo pago desde passagens aéreas até hospedagens com estadias em hotéis cinco estrelas, seis estrelas contando com a sua – que vai ter maior brilho. Os futuros titulares dos respectivos cargos ficam isentos de pagar quaisquer despesas originárias dessas locomoções, ficando a responsabilidades dos pagamentos a cargo dos contratantes. Os cargos não têm salubridade. Porém a falta desse benefício é coberta pela impunidade.

Os candidatos não precisam ter ficha limpa, apresentar comprovante de escolaridade (ensino básico, médio ou superior). As funções não exigem experiência, cabendo aos seus futuros ocupantes desenvolver, se forem capazes, tais aptidões durante o exercício do trabalho. O que se não ocorrer também não servirá de motivo para que os não aprovados sofram restrições de concorrer a cargos de prefeitos e vice-prefeitos e vereadores – numa segunda chamada que acontecerá em 2012. Obs: Não é preciso estar diariamente no local de trabalho; isso em todas as funções pleiteadas.

Quadrienal - Todos os cargos têm duração de quatro anos, podendo ser prorrogados por mais quatro anos (e alguns são para a vida toda; ex: deputados estaduais e deputados federais).

Observações: A função de presidente pode ser ocupada apenas duas vezes seguidamente com prazo de finalização prevista para oito anos. Mas, dependendo de uma mexida no contrato pode ser esticada para três ocupações consecutivas, com duração prevista para 12 anos e daí para mais basta rasgar contrato e baixar o porrete em todo mundo. A função de senador é estipulada em oito anos. Essa exige um “bigodão” para causar impacto!

A saber – Aos candidatos faz-se necessário tomar os devidos cuidados e precauções com a Imprensa


Parte II

Bifurcações da encruzilhada; Vizinhos I e II, ou o título que o leitor quiser e “Viva a democracia!!!”

Dois vizinhos de um bairro classe média “B” olhavam do outro lado da rua os palacetes dos vizinhos frontais cujos patrimônios revelavam uma classe média um pouco mais nivelada: tipo “A”. E lá vai conversa – Ta vendo que casão! O dono é um importante executivo de uma multinacional, vários cursos no exterior, incluindo um diploma de Harvard. “Taca” vida feita, disse olhando o cúmplice do diálogo despretensioso.

– É... e olha aquela ali, que casarão! É de um cirurgião plástico, renomado internacionalmente. Tem vários cursos de especialização na Europa. Dizem que já levantou as pelancas de muitas atrizes famosas de Hollyood. O bisturi do cara é mágico. Fez muito dragão virar princesa – devolveu o cúmplice.

E o fiel ouvidor repôs a conversa no rumo – Vê aquela ali, é um verdadeiro castelo. O dono mal sabe ler; confunde ó com fiofó. Pior! nem sabe falar direito. É um réu confesso, assassino do português, falha que para ele não é considerada grave entre as e mais fatais que comete. Se fossem praticadas por outro qualquer reles mortal, seria tal infeliz atirado na cadeia e a chave da cela jogada fora – arrematou em tom revoltoso o anfitrião do diálogo.

– Caceta! O que faz o poderoso vizinho frontal, a quem o rigor da lei é tão duro quanto uma geléia – perguntou abismado o vizinho II.

– O nobre distinto é político, dono de mandato, tu sabes... – arrematou gélido o vizinho I, sem completar a frase.

E o papo findou, porque a fila anda!!!
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Coisa de Louco

Já passei em tudo que é tipo de profissional do ramo de medicina: pulmões, olhos, boca, coração, e etc... O preconceito, o machismo e a resignação em morrer virgem, ainda não me levaram a fazer o exame de próstata, feito por oncologistas (!?). Nem eu mesmo sei se é esse o cara responsável por meter o dedo indicador onde não deve; onde o homem que é homem jamais teve o pesadelo de ver alguém fuçando. Dá para se ter uma noção do tamanho do desejo e vontade de morrer cabaço, invicto! Sou campeão!!!

Mais entre essas é outras vias médicas, deu de um dia eu precisar ir a um psiquiatra. Não estava batendo os pinos, mas os estresses da vida, síndrome do pânico, mania de perseguição e outras do reinado de Nero, já estavam me pondo a meio fio entre o real e o imaginário com os dois se fundindo num só, e eu no meio dessa parafernália psíquica não vi outra alternativa, a não ser marcar uma consulta com o “médico de cabeça”. A veia literária até me serviu de consolo quando ditava que de poeta, médico e louco todos temos um pouco. Fico no segundo plano, me considero poeta. Gosto do último; sou um pouco louco.

Tudo bem, e vamos ao grande dia – José marquei consulta com um psiquiatra –, disse ao amigo de todas as horas que já foi retrucando – Tava mais que na hora de ver o que tem nessa cabeça de “girico”. Não sei o que existe na cabeça de jornalistas. Só andam pensando em concertar o mundo, em denunciar e fazer o diabo a quatro com a corrupção e, quando não conseguem se frustram e começam a ver cobras subindo pelas paredes.

– Pega leve Zé, to te expondo uma intimidade e você me vem com essa cachoeira de bronca. Não bastasse essa dúvida desgraçada que ta comendo o meu cérebro –, supliquei.

– Desculpa é que hoje eu to igual a você. Não sai da cama nem com o pé direito, nem com o esquerdo. Tomei um tombo ferrado. Acordei com minha sogra gritando que não tinha ninguém pra levar o Juninho pra escola. Além da sogra gritando, lembrei do meu finado pai rasgando a garganta para me tirar da cama pra ir pra escola. Fui sair da cama, me enrolei todo no cobertor e espalhei no chão, fiquei igual a uma dobradinha –, narrou o companheiro das horas mais duras e mais difíceis da minha vida. Inclusive aquela posta quando ele me pôs todo o drama de acordar ouvindo a doce voz da mãe de sua esposa. Ê doçura amarga!!!

– Que “cê” tem cara?

– Sei lá. Se soubesse não ia a um médico. Principalmente um médico de doido!

– Ta rasgando nota de cem reais?

– Não?

– Ta vendo disco voador?

– Não!

– Extraterrestres?

– Não!

– Começou a acreditar em duendes?

– Não!

– Papai Noel?

– Não!

– Mula-sem-cabeça?

– Não!

– Em políticos?

– Nããããaoooooo!!! Zé, é claro que não, é não brincadeira cara. É sério!!!

– Então qual é a sua dúvida cruel? –, indagou ele sentindo que a gravidade da situação já estava correndo para as vias de fato.

– A situação é a seguinte. Já vai pra uma semana que não consigo dormir. O cérebro ta a milhão. Quando chego na redação, e pra não ficar ouvindo “babaquices” de jornalista metido a intelectual que sabe e tem respostas pra concertar todos os erros que acontecem no país – com direito à aulas de política de internacional para dar pitaco no problema de outros países – já me enfio no carro de reportagem e me mando pra ruas. Ô lugar lindo. É uma floresta com toda a espécie de bicho: puta, mendingo, patricinhas(os), cafetão, traficante, policiais corruptos, bêbados, moradores de rua, engravatados pensando em dar algum tipo de golpe, homicidas e toda a fauna digna do inferno de Dante, por onde passo eu, meu gravador e minha máquina fotográfica (pra congelar essa porra toda; que por minha vontade lançava maldição com mil anos de congelamento – por mais mil anos prorrogáveis – até que Deus bolasse um jeito melhor de perder o tempo para a construir uma humanidade humana) – resumindo Zé, é isso ai tudo e algo maior que a torcida do Corinthians e do Flamengo que está fundindo a minha cabeça.

– Caraca!!! a coisa ta mal mesmo. Eu heim!!! Meus pêsames, amigão. O que eu coloco na lápide. “Aqui jaz um idealista, que de tanto pensar agora se alimenta igual a um burro, come o mato pela raiz”, tripudiou o irreverente José.

– Carajo!!! Zé você não se compadece da dor do teu amigo. Porra!!! Eu to ficando “doidaço” e você é só piada!!! Dá um tempo, que caceta!!!

– Calma “véio”! Ta pirando mesmo. Antes o rei do tripúdio era tu. Agora ta parecendo um leão com um espinho na pata. Vai manso que o Santo é de barro, meninão!!! –, esquivou o amigo já consciente que ia tomar uns sopapos.

– Vai! Que conselho você quer? –, disse voltando à normalidade do tema, que no momento era a minha suposta anormalidade.

– Ô Zé, desculpa pela explosão. É que eu ando um vulcão em plena atividade. Vamos lá, nunca tive nessa situação. Falar com um psiquiatra. Nem sei o que vou dizer. Chego lá e o cara vai ficar me olhando, eu olhando pra ele. E pensando: pronto dois loucos, um querendo saber quem é o mais doido. Êh derrota –, falei.

– Bom, se você já tem todo esse quadro analítico então nem precisa ir. Aliás, está muito bom da cabeça. Pensa até como vai ser todo o andamento da consulta. “Ce” tem nada cara, é só descansar e ta pronto pra outra –, disse me acalmando o velho, bom e irreverente amigo Zé.

Mais aliviado, respondi – Ô Zé! valeu pela força. Você é um amigão mesmo. E mais um favor! Como nunca fui a esse tipo de médico nem sei o que vestir. O que você sugere?

Ele me olhou bem nos fundos dos olhos. Fez aquela cara de super-hiper-mega entendedor numa boa roupa para esses momentos e mandou. – Calça, sapatos e pra ficar bem a rigor mesmo, vai vestido com uma camisa-de-força!!!


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4 Estações

O título do filme, cuja frase fez saltar da memória centenas de imagens, realmente é impossível lembrar. Mas, o efeito da frase encheu a alma. "A verdade é um lugar onde moram os bons". O som metálico foi captado do ator, pronunciado enquanto ele estava absorto em pensamentos. Houve cumplicidade entre o espectador e o personagem; viviam momentos idênticos. É incrível como em algumas situações pequenas coisas, detalhes ínfimos tomam proporções imensas, fazendo a mente borbulhar em rápidas imagens e cenas, recortes de lembranças.


"A verdade é um lugar onde moram os bons". Para quem já correu o mundo em busca de si próprio e achou muitas coisas, a verdade é algo assustador. Uma busca tão ou bem mais desoladora que a do Santo Graal. Mas, é lá que moram os bons e, por isso, muitos a temem.


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Um barzinho em uma das esquinas da cidade. Cerveja e pizza, acompanhando o tom da despedida, o tom de pessoas que não querem se afastar. São impelidas a isso por questões de auto-afirmação e necessidades pessoais. – E aí o que você vai ser quando crescer? – O riso da garota se abre, com perguntas que esquentam um iceberg. – Pelo jeito que as coisas andam, estou é querendo voltar pro útero da minha mãe – Qual é o cara que quando o bicho pega não pensa logo na mãe. A frágil fortaleza, que dá sustentação pro resto da vida. Melhor que ser pai, é ser mãe. Só...


– Eu vou cair na estrada, vou me procurar. Ver aonde ando, o que quero. Porque, o que eu não quero é o tradicional. Tem muita coisa pra viver – a resposta obstinada caracteriza a busca insólita. – Quando você se achar... – disse ela, ajeitando-se na cadeira, fazendo o mesmo com os braços, acotovelados à mesa. – ... diz que eu falei que você é um cara muito legal, não esquece. – Deixa comigo.


O amor que acaba sem querer traz boas verdades, e boas mentiras. "Eu vou te amar pra sempre" é uma delas. O sempre, sempre tem fim, é a boa e perpétua mentira. Depois de tudo, um passeio na rua, o abraço na noite. E aquele silêncio inquebrantável, porque tem horas que falar estraga tudo, quebra a magia do momento. No silêncio se diz muito mais coisas; o tato aflora à alma, a sensibilidade vai a mil por hora. A despedida no portão, o beijo e outro abraço, mais caloroso, apertado, o mais desesperado do Mundo.


No aeroporto nada de despedida. Um adeus nunca ouvido, ficou combinado que aquela seria a noite da eternidade; depois da cama, uma imagem congelada no aceno de mão no portão.


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A vida corre. Fica alta (altos apuros) em alta velocidade, principalmente quando se está no 15º andar de um prédio. Os pensamentos voando pela cabeça, um punhado de papel na mão à espera que a editora avalie o "trabalho literário", e nasça uma coisa um pouco menor que Jorge Amado. Do 15º andar as pessoas ficam do tamanho que são: pequenas. Tudo passa rápido, muito depressa. Esperar é uma arte, viver é fazer a arte. Artisticamente, lá se foi uma coisa um pouco menor que Jorge Amado, voando pela enorme janela de vidro. Flutuando como folhas num bosque de concreto, batendo em alguns prédios, invadindo, sorrateiras janelas entreabertas, que permitiram a invasão de outros sentimentos.


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"A verdade é um lugar onde moram os bons". A frase trouxe o passado que não assusta. Não cobra; pelo contrário alivia. Algumas boas coisas e boas ações são resumidas no silêncio. Não precisando do testemunho de si próprio que assim tenta buscar algo verdadeiro dentro de sua existência: e mentem. "A verdade é um lugar onde moram os bons". Alguns fazem de seu passado esse lugar. Um teto repleto de boas lembranças, do barzinho à pizza com cerveja, o passeio. O abraço, o aeroporto e a despedida que nunca aconteceu. O inverno que nunca chega.
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Atalhos


Há alguma coisa verdadeira

em nascer,

em viver

e morrer.

Um sentido!

Há um tempo que é arma

que fere,

e ao mesmo tempo esperança

que cicatriza.

Há um caminho que sigo

feito de atalhos... atalhos...

Trechos de outras vidas

mutiladas,

que deixaram suas esperanças

fragmentadas

nas cabeças grávidas

dos poetas, dos profetas.

Eles, que abortam as hipocrisias.

Adotam em si, por nós,

poesias, profecias.

Vomitam nos preconceitos.

Proliferam paz e respeito.

A vida justifica parte do que sinto.

Porque em minhas passagens,

minhas viagens,

minhas miragens,

vi rostos de seres aflitos

fomentados por desejos

de igualdade, de pão, de paz.

Senti um profundo esquecimento

em suas faces.

Um esquecimento

entre meus esquecimentos,

meus caminhos, meu atalhos.

Ah! Versos que não rimam.

Eu !!!

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O “gayranhão”


O cara se gabava de traçar tudo: melhor, todas. Dizia ser da mais alta periculosidade. Fosse de saia ou calça, mas, por baixo calcinha e por cima sutiã; com os sustentáculos guardando belos seios (pequenos, grandes, médios extragrandes), não importava; qualquer mulher era o seu número. Com elas tinha 100% de aproveitamento, afirmava o falastrão. Inventava estórias mirabolantes. Aventuras de casos e relações sexuais para-normais e extra-sensoriais. Tudo para garantir que, em se falando de e sobre o sexo oposto era com ele. Fosse desse ou de outro mundo.
Entre um gole e outro de cachaça narrou aos amigos o fantasmagórico sexo-caso vivido com a “Loira”. Uma defunta meio pedófila, meio papa adolescente que nos períodos manhã, tarde e noite, com espaços para o café da tarde, o vespertino, assustava estudantes. Muitos frangotes preferiam molhar as calças que ir fazer tal necessidade no banheiro escolar: temerosos de encontrar a morta viva, cujos olhos sangravam abundantemente. Chafariz era contido na boca, nariz e os ouvidos, tapados com algodão. Hoje, pior que a suposta aparição daquela época – meados dos anos 70 – é ouvir político discursar sobre honestidade. Dá medo!
Não é que o indomável corcel encontrou a tal. – Mandei bala! Narrou o galhofeiro.– E não é mole não! Politicamente correto, disse que foi a transa mais inter-pluripartidária, com as coreografias das posições se levada ao campo da atual ideolorgia política, aporrinhada com troca de pares e partidos, podendo deixar a esquerda pasmada, a direita atônita e o cento descentralizado. A tri-ação sexo, para-normal, democrática transcorreu da forma ampla geral e irrestrita. “E que abertura!”, suspirou em estado de gozo o loroteiro. Para arrematar o embuste, o garganta concluiu que de tão bom foi para as ambas as partes que ele quase morre, e a defunta quase ressuscita.
Além das assustadoras relações para-normais tinham também as interplanetárias: traçou venuzianas, marteanas, plutorianas, saturnianas, júpiterianas, e outras anãs. Enfim! Deu uma volta nos motéis de todo o Sistema Solar. Só não catou uma mercuriana por medo do bráulio virar cinzas.
Os amigos, esses, ouviam tudo no maior desdém. Alguns viajavam nas idéias, as usando para compor as suas próprias fantasias. Mas, como quem se mistura com porco farelo come, no clube do lábia tinha uns coisas bem,e um pouco mais fanfarrão que ele. A facção concorrente lançou o desafio. – Já que tu pega todas, vamos ver se uma colega nossa cai na sua rede. Se tu jogá um chaveco e passar uma noite com ela, aí, te outorgaremos o título de Rei das Forquilhas. – Trato feito majestade? Desafio aceito, meus súditos! Respondeu de pronto..
A Keylla não era mulher! Era um coquetel! Com o sabor perverso de Sheron Stone, o doce ingênuo de Marilyn Monroe, todos os cheiros da Juliana Paes, o ar felino de Kim Basinger, a opulência lasciva da Andressa Soares, vulgarmente rotulada Mulher Melancia; e a cor cravo e canela de Gabriela.
A Keylla não era mulher... era tudo... E lá se foi o aventureiro em mais uma conquista que iria ficar gravada nos anais da história. Os 12 trabalhos de Hércules, a homeriana Odisséia de Ulisses, aventuras do lendário Barão de Munchausen e outras ousadias heróicas do gênero virariam o simples conto frente repto aceito resignadamente pelo espécime eqüino de duas patas.
Os segundos, os minutos, a hora, o dia, a noite, a semana, mês. O tempo passou. Ao prazo de dois meses, a vista; o encontro com Keyylla. – Me-meus de-deuses! Isso não é mulher” – gaguejou em pensamento o desafiado, quase dilacerando a língua para balbuciar um monossilábico “Oi!!!”. –Oi!”, rebateu uma voz aveludada. Em situações complicadas o chão falta. Foi o caso dele. Do chão foi direto ao paraíso. E ela caiu na rede. Papo vem papo vai, sábado. A noite cai. Keylla é liberal, liberada. “Isso não é mulher!”. Motel na certa? Certo! Noite de sábado. Adentram no ninho do fogo da devassidão do amor.
Bebidas, toques, penumbra, beijos calientes, tudo na lentidão da câmera. O garanhão que não era lá de beber, após alguns drinques fortes, foi apagando. “Amanhã detono a potranca”, idealizava enquanto Orfeu o embalava nos braços.
Pela manhã a cabeça dolorida e uma irritação queimando-lhe o traseiro.

Maldita hemorróidas, era só beber em demasia que nascia uma flor na região a baixo das costelas. Procurou a potranca, chamou e nada, silêncio total. Repuxou o lençol a mão escorregou na gosma. O preservativo estava cheio de coisa que não saiu da coisa adormecida dele, que pegou no sono. A dor... a camisa, Ui! Vênus, Keylla. Keylla. Ai! Realmente, a Keylla não era mulher!!!

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Os Cabras da Peste


– Cabra! vou te contar uma coisa – disse o homem revelando nas feições e no sotaque sua condição de nordestino. Puxou as calças pela cinta, afundou a camisa dentro do rego; já estava pronto para narrar um “causo”. Olhou o amigo que balançava um copo de cachaça e desandou a falar. Disse que conheceu um tipo mequetrefe tão rato que o próprio suor do maldito transmitia a peste bubônica – Imagine os danos da urina do peçonhento. Não é que o bicho imitava em tudo um camundongo, Mandava a paciência de qualquer um pro esgoto. E quando conseguia o intento, chorava de rir. Para ele era prazeroso ver a desgraça alheia – falava o cabra, enquanto baforava a fumaça de seu artesanal cigarro, coberto com palha e recheado com fumo de corda.


Entre uma baforada e outra, a pausa para jogar cachaça na goela para evitar o pigarro. Tudo seguido de uma cara feia, que ficava mais horrenda quando levava as mãos até a boca para secar a pinga que vazava da boca, furada a bala. – Não é que o maldito tentou desgraçar a minha vida com um despacho, numa encruzilhada que só o peçonhento do Capeta passa perto pra ver quem é o próximo da lista. Mas, a galinha preta, o charuto e a cachaça eram tão chinfrim capenga, que o mau nem chegou perto da minha pessoa. O Demo gosta de luxeza, coisa fina. Felicidade do homem de fé é que o Peçonhento não alcança a gente, e o corpo fechado não deixa essas tranqueiras entrar – falou, comemorando o fracasso da empreitada com mais um gole de pinga.


Um outro próximo a ele, de ouvido na conversa e ocupado com uma das mãos, cuja ponta da peixeira tratava de afinar o papel para um cigarrinho de fumo de corda demandou na questão – Cabra! Se eu pego um rato como esse tal não furo na bala não. Meto o aço nas tripas para ver o sangue do canalha escorrer pelas mãos. Fico sem lavar as patas pelo menos um mês. Pois, quem tira esses bangalafumengas que só fazem peso na terra, danando a vida dos outros, ta fazendo um trabalho pra o nosso santo Padim Ciço. Já despachei muito chibungo por coisa bem menor – disse se calando no silêncio do cigarro já pronto, levado à boca fedorenta. “Trabalhava” para coronéis, a quem tratava do serviço sujo: matar quem ousasse a atravessar os planos e o caminho dos seus patrões canalhas.


– Gostei da aprochegada do amigo na questão e, sinceramente digo, por essa luz de Nossa Senhora que me alumia, não tivesse eu na condição de presidente da Sociedade Protetora dos Animais fazia isso com o merdinha. Tenho que relevar e dar bom exemplo. São os ossos desse ofício penoso. Entrei a mando da mulher, depois que mataram umas galinhas e uns cabritos dela. Mas, a patroa “enviuvou” depois que enforcaram o nosso cachorro de estimação numa árvore. Dava mais valor ao cão que a mim. Fizeram essa desgraceira com os bichos na intenção de mandar o recado que a sangria era pra mim. Como não é bom ficar de prosa e nem mandar recado da Morte, nem avisei ela. Sem permissão já fui passando ferro e fogo em todo mundo. Depois da morte dos animais, fiz juramento de proteger todos eles do bicho de duas patas. No fundo, sou igual a minha mulher; prefiro um cão a um homem. Ela mandou, e eu tratei de obedecer para garantir lugar na cama. A Maria disse que alguém tinha que fazer Justiça nessa terra de Nosso Senhor Jesus Cristo, nesse mundão de meu Deus. A companheira é devota de São Lázaro, com quem divide a simpatia com São Francisco – justificou, jogando mais cachaça no bucho.


- E a conversa foi adentrando a noite, enchendo de eco o bar rústico, escuro e catinguento, onde as vozes eram regadas a ódio guardado, ódio arregaçado, muita cachaça, carne de sol, e crença em dias melhores; enquanto os dias piores não cessavam.

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Crônica de um vigarista crônico

Certa feita, um caboclo, desses: tipo faceiro, cheio de ginga e de lábia, me parou nas ruas de Sanpa, aonde a necessidade capital me leva a ir com a obrigação de fazer uns “frila”, para aumentar a diminuta grana jornalística.


Bom! Quer dizer mal! O mequetrefe desandou a falar. – Meu amigo (nunca vi uma amizade nascer tão rápido, acabava de “conhecer” o bangalafumenga, que aparentemente, estava desejoso de mandar bala num desabafo) – devo pra Deus e o Mundo. Já não sei aonde arranco grana para pagar minhas contas. O pessoal do SPC já alertou: se eu chegar uns cinco metros próximo de qualquer loja me tacam na cadeia, tamanha é a minha capivara. Os que ficam de olho nos ficha suja, estão grudados em mim. To pego!


É! A vida financeira do fubica estava braba, pra lá de Marráquexe, deduzi. E ele continuou o falatório. – Acredita que tentei fazer um acordo com o Demo, vender a minha imprestável alma. Mas, acho que até o Rabudo ao ver o tamanho e peso da bronca não quis fechar negócio. Minha situação é irremediável”, lamentou.


Caraca! Me assustei. Se o próprio Demo não quis barganhar com o “infeliz”, o que eu ali, na condição de simples transeunte estava fazendo, me molhando naquela choradeira. Penso com os meus botões, que tenho muito mais coisa pra fazer que o Diabo. Sou, pretensiosamente, do bem. Não tenho e nunca tive vocação para padre. Mas, em plena rua paulistana me senti num confessionário, ouvindo as auto-admoestações de um pobre vivente, arrependido de ter “pilantrado” uma centena de pessoas, que por falta de espaço, tempo, e oportunidade, não fez mais vítimas. E na parada obrigatória, ao entrar numa profunda reflexão viu a desgraça feita Mundo a fora, optando pela remissão do pecado capital (no sentido financeiro da palavra).


O um, sete, um, me confidenciou que o seu lema era: Se otário não existia malandro não vivia. Na minha conduta – repreensível – acredito no malandro honesto: o boêmio. Toma umas e outras, cai na gandaia e reza Pai Nosso e Ave Maria quando a ressaca braba o faz pensar que vai dessa pra melhor, ou pior quem sabe. Por isso, é que plagio o que ouvi de um sambista: “Se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”.


Continuando a prosa, foi ledo engano de minha parte cogitar que o ordinário estivesse caindo no arrependimento – Olha! – disse ele, ao que olhei e adiantei – O cara vai chorar e pedir perdão a Deus pelas ações de pilantrofia praticadas a esmo. Que nada! Necas de pitipiriba. Não é que o vigarista arrumou a fórmula de, além de pagar suas contas, arrumar mais uma legião de otários para sustentá-lo – Seguinte! – voltou a falar – As eleições estão aí. Com o que apreendi na universidade da vida, mais os conhecimentos obtidos nas horas de vadiagem nos bancos das praças acredito que posso vender algumas ilusões e, conseguir um mandato para me dar bem uns quatro anos. Traduzindo: vou mamar nas tetas do Poder. Pago tudo, faço novas dívidas e vou levando a vida, com os trouxas me levando... caindo na minha rede.
– Esse é mais um grande janistroques, patife,

canalha, f.d.p., ruminei nas idéias. Mas, ingenuamente, visualizei – O povo já está vacinado contra esse tipinho de gente. Legal! Ele foi pra um lado, provavelmente, dar um picaretada em alguém. E eu fui à cata do “frila”, aumentar a rasgada renda familiar. Pois bem, passou o tempo, chegou e passou as eleições. Como é de costume e hábito jornalístico folheei alguns jornais, no objetivo de ler, ver e avaliar os erros e “acertos políticos”.


Confesso, quase tive um AVC com a capa de um deles, onde a foto estampava o pulha, que me parou nas ruas de Sanpa, erguido à altura dos ombros de dezenas de idiotas – que o levarão nas costas por quatro anos. A manchete – Fulano de Tal ganha estourado e é o novo prefeito da cidade.