Walmir Barros

Leitura
em Movimento
Ótima
oportunidade de empregos
Parte I
País nada
sério precisa de: presidente, senadores,
deputados federais, deputados estaduais e governadores:
As vagas deverão ser preenchidas depois de
outubro de 2010. Oferecem-se ótimos salários
fixos, boas “comissões” e infindáveis
vantagens: como viagens nacionais e internacionais,
serviço com tudo pago desde passagens aéreas
até hospedagens com estadias em hotéis
cinco estrelas, seis estrelas contando com a sua
– que vai ter maior brilho. Os futuros titulares
dos respectivos cargos ficam isentos de pagar quaisquer
despesas originárias dessas locomoções,
ficando a responsabilidades dos pagamentos a cargo
dos contratantes. Os cargos não têm
salubridade. Porém a falta desse benefício
é coberta pela impunidade.
Os candidatos não
precisam ter ficha limpa, apresentar comprovante
de escolaridade (ensino básico, médio
ou superior). As funções não
exigem experiência, cabendo aos seus futuros
ocupantes desenvolver, se forem capazes, tais aptidões
durante o exercício do trabalho. O que se
não ocorrer também não servirá
de motivo para que os não aprovados sofram
restrições de concorrer a cargos de
prefeitos e vice-prefeitos e vereadores –
numa segunda chamada que acontecerá em 2012.
Obs: Não é preciso estar diariamente
no local de trabalho; isso em todas as funções
pleiteadas.
Quadrienal - Todos
os cargos têm duração de quatro
anos, podendo ser prorrogados por mais quatro anos
(e alguns são para a vida toda; ex: deputados
estaduais e deputados federais).
Observações:
A função de presidente pode ser ocupada
apenas duas vezes seguidamente com prazo de finalização
prevista para oito anos. Mas, dependendo de uma
mexida no contrato pode ser esticada para três
ocupações consecutivas, com duração
prevista para 12 anos e daí para mais basta
rasgar contrato e baixar o porrete em todo mundo.
A função de senador é estipulada
em oito anos. Essa exige um “bigodão”
para causar impacto!
A saber – Aos
candidatos faz-se necessário tomar os devidos
cuidados e precauções com a Imprensa
Parte II
Bifurcações
da encruzilhada; Vizinhos I e II, ou o título
que o leitor quiser e “Viva a democracia!!!”
Dois vizinhos de
um bairro classe média “B” olhavam
do outro lado da rua os palacetes dos vizinhos frontais
cujos patrimônios revelavam uma classe média
um pouco mais nivelada: tipo “A”. E
lá vai conversa – Ta vendo que casão!
O dono é um importante executivo de uma multinacional,
vários cursos no exterior, incluindo um diploma
de Harvard. “Taca” vida feita, disse
olhando o cúmplice do diálogo despretensioso.
– É...
e olha aquela ali, que casarão! É
de um cirurgião plástico, renomado
internacionalmente. Tem vários cursos de
especialização na Europa. Dizem que
já levantou as pelancas de muitas atrizes
famosas de Hollyood. O bisturi do cara é
mágico. Fez muito dragão virar princesa
– devolveu o cúmplice.
E o fiel ouvidor
repôs a conversa no rumo – Vê
aquela ali, é um verdadeiro castelo. O dono
mal sabe ler; confunde ó com fiofó.
Pior! nem sabe falar direito. É um réu
confesso, assassino do português, falha que
para ele não é considerada grave entre
as e mais fatais que comete. Se fossem praticadas
por outro qualquer reles mortal, seria tal infeliz
atirado na cadeia e a chave da cela jogada fora
– arrematou em tom revoltoso o anfitrião
do diálogo.
– Caceta! O
que faz o poderoso vizinho frontal, a quem o rigor
da lei é tão duro quanto uma geléia
– perguntou abismado o vizinho II.
– O nobre distinto
é político, dono de mandato, tu sabes...
– arrematou gélido o vizinho I, sem
completar a frase.
E o papo findou,
porque a fila anda!!!
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Coisa de
Louco
Já passei
em tudo que é tipo de profissional do ramo
de medicina: pulmões, olhos, boca, coração,
e etc... O preconceito, o machismo e a resignação
em morrer virgem, ainda não me levaram a
fazer o exame de próstata, feito por oncologistas
(!?). Nem eu mesmo sei se é esse o cara responsável
por meter o dedo indicador onde não deve;
onde o homem que é homem jamais teve o pesadelo
de ver alguém fuçando. Dá para
se ter uma noção do tamanho do desejo
e vontade de morrer cabaço, invicto! Sou
campeão!!!
Mais entre essas
é outras vias médicas, deu de um dia
eu precisar ir a um psiquiatra. Não estava
batendo os pinos, mas os estresses da vida, síndrome
do pânico, mania de perseguição
e outras do reinado de Nero, já estavam me
pondo a meio fio entre o real e o imaginário
com os dois se fundindo num só, e eu no meio
dessa parafernália psíquica não
vi outra alternativa, a não ser marcar uma
consulta com o “médico de cabeça”.
A veia literária até me serviu de
consolo quando ditava que de poeta, médico
e louco todos temos um pouco. Fico no segundo plano,
me considero poeta. Gosto do último; sou
um pouco louco.
Tudo bem, e vamos
ao grande dia – José marquei consulta
com um psiquiatra –, disse ao amigo de todas
as horas que já foi retrucando – Tava
mais que na hora de ver o que tem nessa cabeça
de “girico”. Não sei o que existe
na cabeça de jornalistas. Só andam
pensando em concertar o mundo, em denunciar e fazer
o diabo a quatro com a corrupção e,
quando não conseguem se frustram e começam
a ver cobras subindo pelas paredes.
– Pega leve
Zé, to te expondo uma intimidade e você
me vem com essa cachoeira de bronca. Não
bastasse essa dúvida desgraçada que
ta comendo o meu cérebro –, supliquei.
– Desculpa
é que hoje eu to igual a você. Não
sai da cama nem com o pé direito, nem com
o esquerdo. Tomei um tombo ferrado. Acordei com
minha sogra gritando que não tinha ninguém
pra levar o Juninho pra escola. Além da sogra
gritando, lembrei do meu finado pai rasgando a garganta
para me tirar da cama pra ir pra escola. Fui sair
da cama, me enrolei todo no cobertor e espalhei
no chão, fiquei igual a uma dobradinha –,
narrou o companheiro das horas mais duras e mais
difíceis da minha vida. Inclusive aquela
posta quando ele me pôs todo o drama de acordar
ouvindo a doce voz da mãe de sua esposa.
Ê doçura amarga!!!
– Que “cê”
tem cara?
– Sei lá.
Se soubesse não ia a um médico. Principalmente
um médico de doido!
– Ta rasgando
nota de cem reais?
– Não?
– Ta vendo
disco voador?
– Não!
– Extraterrestres?
– Não!
– Começou
a acreditar em duendes?
– Não!
– Papai Noel?
– Não!
– Mula-sem-cabeça?
– Não!
– Em políticos?
– Nããããaoooooo!!!
Zé, é claro que não, é
não brincadeira cara. É sério!!!
– Então
qual é a sua dúvida cruel? –,
indagou ele sentindo que a gravidade da situação
já estava correndo para as vias de fato.
– A situação
é a seguinte. Já vai pra uma semana
que não consigo dormir. O cérebro
ta a milhão. Quando chego na redação,
e pra não ficar ouvindo “babaquices”
de jornalista metido a intelectual que sabe e tem
respostas pra concertar todos os erros que acontecem
no país – com direito à aulas
de política de internacional para dar pitaco
no problema de outros países – já
me enfio no carro de reportagem e me mando pra ruas.
Ô lugar lindo. É uma floresta com toda
a espécie de bicho: puta, mendingo, patricinhas(os),
cafetão, traficante, policiais corruptos,
bêbados, moradores de rua, engravatados pensando
em dar algum tipo de golpe, homicidas e toda a fauna
digna do inferno de Dante, por onde passo eu, meu
gravador e minha máquina fotográfica
(pra congelar essa porra toda; que por minha vontade
lançava maldição com mil anos
de congelamento – por mais mil anos prorrogáveis
– até que Deus bolasse um jeito melhor
de perder o tempo para a construir uma humanidade
humana) – resumindo Zé, é isso
ai tudo e algo maior que a torcida do Corinthians
e do Flamengo que está fundindo a minha cabeça.
– Caraca!!!
a coisa ta mal mesmo. Eu heim!!! Meus pêsames,
amigão. O que eu coloco na lápide.
“Aqui jaz um idealista, que de tanto pensar
agora se alimenta igual a um burro, come o mato
pela raiz”, tripudiou o irreverente José.
– Carajo!!!
Zé você não se compadece da
dor do teu amigo. Porra!!! Eu to ficando “doidaço”
e você é só piada!!! Dá
um tempo, que caceta!!!
– Calma “véio”!
Ta pirando mesmo. Antes o rei do tripúdio
era tu. Agora ta parecendo um leão com um
espinho na pata. Vai manso que o Santo é
de barro, meninão!!! –, esquivou o
amigo já consciente que ia tomar uns sopapos.
– Vai! Que
conselho você quer? –, disse voltando
à normalidade do tema, que no momento era
a minha suposta anormalidade.
– Ô Zé,
desculpa pela explosão. É que eu ando
um vulcão em plena atividade. Vamos lá,
nunca tive nessa situação. Falar com
um psiquiatra. Nem sei o que vou dizer. Chego lá
e o cara vai ficar me olhando, eu olhando pra ele.
E pensando: pronto dois loucos, um querendo saber
quem é o mais doido. Êh derrota –,
falei.
– Bom, se você
já tem todo esse quadro analítico
então nem precisa ir. Aliás, está
muito bom da cabeça. Pensa até como
vai ser todo o andamento da consulta. “Ce”
tem nada cara, é só descansar e ta
pronto pra outra –, disse me acalmando o velho,
bom e irreverente amigo Zé.
Mais aliviado, respondi
– Ô Zé! valeu pela força.
Você é um amigão mesmo. E mais
um favor! Como nunca fui a esse tipo de médico
nem sei o que vestir. O que você sugere?
Ele me olhou bem
nos fundos dos olhos. Fez aquela cara de super-hiper-mega
entendedor numa boa roupa para esses momentos e
mandou. – Calça, sapatos e pra ficar
bem a rigor mesmo, vai vestido com uma camisa-de-força!!!
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4 Estações
O título do
filme, cuja frase fez saltar da memória centenas
de imagens, realmente é impossível
lembrar. Mas, o efeito da frase encheu a alma. "A
verdade é um lugar onde moram os bons".
O som metálico foi captado do ator, pronunciado
enquanto ele estava absorto em pensamentos. Houve
cumplicidade entre o espectador e o personagem;
viviam momentos idênticos. É incrível
como em algumas situações pequenas
coisas, detalhes ínfimos tomam proporções
imensas, fazendo a mente borbulhar em rápidas
imagens e cenas, recortes de lembranças.
"A verdade é um lugar onde moram os
bons". Para quem já correu o mundo em
busca de si próprio e achou muitas coisas,
a verdade é algo assustador. Uma busca tão
ou bem mais desoladora que a do Santo Graal. Mas,
é lá que moram os bons e, por isso,
muitos a temem.
****
Um barzinho em uma das esquinas da cidade. Cerveja
e pizza, acompanhando o tom da despedida, o tom
de pessoas que não querem se afastar. São
impelidas a isso por questões de auto-afirmação
e necessidades pessoais. – E aí o que
você vai ser quando crescer? – O riso
da garota se abre, com perguntas que esquentam um
iceberg. – Pelo jeito que as coisas andam,
estou é querendo voltar pro útero
da minha mãe – Qual é o cara
que quando o bicho pega não pensa logo na
mãe. A frágil fortaleza, que dá
sustentação pro resto da vida. Melhor
que ser pai, é ser mãe. Só...
– Eu vou cair na estrada, vou me procurar.
Ver aonde ando, o que quero. Porque, o que eu não
quero é o tradicional. Tem muita coisa pra
viver – a resposta obstinada caracteriza a
busca insólita. – Quando você
se achar... – disse ela, ajeitando-se na cadeira,
fazendo o mesmo com os braços, acotovelados
à mesa. – ... diz que eu falei que
você é um cara muito legal, não
esquece. – Deixa comigo.
O amor que acaba sem querer traz boas verdades,
e boas mentiras. "Eu vou te amar pra sempre"
é uma delas. O sempre, sempre tem fim, é
a boa e perpétua mentira. Depois de tudo,
um passeio na rua, o abraço na noite. E aquele
silêncio inquebrantável, porque tem
horas que falar estraga tudo, quebra a magia do
momento. No silêncio se diz muito mais coisas;
o tato aflora à alma, a sensibilidade vai
a mil por hora. A despedida no portão, o
beijo e outro abraço, mais caloroso, apertado,
o mais desesperado do Mundo.
No aeroporto nada de despedida. Um adeus nunca ouvido,
ficou combinado que aquela seria a noite da eternidade;
depois da cama, uma imagem congelada no aceno de
mão no portão.
****
A vida corre. Fica alta (altos apuros) em alta velocidade,
principalmente quando se está no 15º
andar de um prédio. Os pensamentos voando
pela cabeça, um punhado de papel na mão
à espera que a editora avalie o "trabalho
literário", e nasça uma coisa
um pouco menor que Jorge Amado. Do 15º andar
as pessoas ficam do tamanho que são: pequenas.
Tudo passa rápido, muito depressa. Esperar
é uma arte, viver é fazer a arte.
Artisticamente, lá se foi uma coisa um pouco
menor que Jorge Amado, voando pela enorme janela
de vidro. Flutuando como folhas num bosque de concreto,
batendo em alguns prédios, invadindo, sorrateiras
janelas entreabertas, que permitiram a invasão
de outros sentimentos.
****
"A verdade é um lugar onde moram os
bons". A frase trouxe o passado que não
assusta. Não cobra; pelo contrário
alivia. Algumas boas coisas e boas ações
são resumidas no silêncio. Não
precisando do testemunho de si próprio que
assim tenta buscar algo verdadeiro dentro de sua
existência: e mentem. "A verdade é
um lugar onde moram os bons". Alguns fazem
de seu passado esse lugar. Um teto repleto de boas
lembranças, do barzinho à pizza com
cerveja, o passeio. O abraço, o aeroporto
e a despedida que nunca aconteceu. O inverno que
nunca chega.
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Atalhos
Há alguma coisa verdadeira
em nascer,
em viver
e morrer.
Um sentido!
Há um tempo
que é arma
que fere,
e ao mesmo tempo
esperança
que cicatriza.
Há um caminho
que sigo
feito de atalhos...
atalhos...
Trechos de outras
vidas
mutiladas,
que deixaram suas
esperanças
fragmentadas
nas cabeças
grávidas
dos poetas, dos
profetas.
Eles, que abortam
as hipocrisias.
Adotam em si, por
nós,
poesias, profecias.
Vomitam nos preconceitos.
Proliferam paz e
respeito.
A vida justifica
parte do que sinto.
Porque em minhas
passagens,
minhas viagens,
minhas miragens,
vi rostos de seres
aflitos
fomentados por desejos
de igualdade, de
pão, de paz.
Senti um profundo
esquecimento
em suas faces.
Um esquecimento
entre meus esquecimentos,
meus caminhos, meu
atalhos.
Ah! Versos que não
rimam.
Eu !!!
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O
“gayranhão”
O cara se gabava de traçar tudo: melhor,
todas. Dizia ser da mais alta periculosidade. Fosse
de saia ou calça, mas, por baixo calcinha
e por cima sutiã; com os sustentáculos
guardando belos seios (pequenos, grandes, médios
extragrandes), não importava; qualquer mulher
era o seu número. Com elas tinha 100% de
aproveitamento, afirmava o falastrão. Inventava
estórias mirabolantes. Aventuras de casos
e relações sexuais para-normais e
extra-sensoriais. Tudo para garantir que, em se
falando de e sobre o sexo oposto era com ele. Fosse
desse ou de outro mundo.
Entre um gole e outro de cachaça narrou aos
amigos o fantasmagórico sexo-caso vivido
com a “Loira”. Uma defunta meio pedófila,
meio papa adolescente que nos períodos manhã,
tarde e noite, com espaços para o café
da tarde, o vespertino, assustava estudantes. Muitos
frangotes preferiam molhar as calças que
ir fazer tal necessidade no banheiro escolar: temerosos
de encontrar a morta viva, cujos olhos sangravam
abundantemente. Chafariz era contido na boca, nariz
e os ouvidos, tapados com algodão. Hoje,
pior que a suposta aparição daquela
época – meados dos anos 70 –
é ouvir político discursar sobre honestidade.
Dá medo!
Não é que o indomável corcel
encontrou a tal. – Mandei bala! Narrou o galhofeiro.–
E não é mole não! Politicamente
correto, disse que foi a transa mais inter-pluripartidária,
com as coreografias das posições se
levada ao campo da atual ideolorgia política,
aporrinhada com troca de pares e partidos, podendo
deixar a esquerda pasmada, a direita atônita
e o cento descentralizado. A tri-ação
sexo, para-normal, democrática transcorreu
da forma ampla geral e irrestrita. “E que
abertura!”, suspirou em estado de gozo o loroteiro.
Para arrematar o embuste, o garganta concluiu que
de tão bom foi para as ambas as partes que
ele quase morre, e a defunta quase ressuscita.
Além das assustadoras relações
para-normais tinham também as interplanetárias:
traçou venuzianas, marteanas, plutorianas,
saturnianas, júpiterianas, e outras anãs.
Enfim! Deu uma volta nos motéis de todo o
Sistema Solar. Só não catou uma mercuriana
por medo do bráulio virar cinzas.
Os amigos, esses, ouviam tudo no maior desdém.
Alguns viajavam nas idéias, as usando para
compor as suas próprias fantasias. Mas, como
quem se mistura com porco farelo come, no clube
do lábia tinha uns coisas bem,e um pouco
mais fanfarrão que ele. A facção
concorrente lançou o desafio. – Já
que tu pega todas, vamos ver se uma colega nossa
cai na sua rede. Se tu jogá um chaveco e
passar uma noite com ela, aí, te outorgaremos
o título de Rei das Forquilhas. – Trato
feito majestade? Desafio aceito, meus súditos!
Respondeu de pronto..
A Keylla não era mulher! Era um coquetel!
Com o sabor perverso de Sheron Stone, o doce ingênuo
de Marilyn Monroe, todos os cheiros da Juliana Paes,
o ar felino de Kim Basinger, a opulência lasciva
da Andressa Soares, vulgarmente rotulada Mulher
Melancia; e a cor cravo e canela de Gabriela.
A Keylla não era mulher... era tudo... E
lá se foi o aventureiro em mais uma conquista
que iria ficar gravada nos anais da história.
Os 12 trabalhos de Hércules, a homeriana
Odisséia de Ulisses, aventuras do lendário
Barão de Munchausen e outras ousadias heróicas
do gênero virariam o simples conto frente
repto aceito resignadamente pelo espécime
eqüino de duas patas.
Os segundos, os minutos, a hora, o dia, a noite,
a semana, mês. O tempo passou. Ao prazo de
dois meses, a vista; o encontro com Keyylla. –
Me-meus de-deuses! Isso não é mulher”
– gaguejou em pensamento o desafiado, quase
dilacerando a língua para balbuciar um monossilábico
“Oi!!!”. –Oi!”, rebateu
uma voz aveludada. Em situações complicadas
o chão falta. Foi o caso dele. Do chão
foi direto ao paraíso. E ela caiu na rede.
Papo vem papo vai, sábado. A noite cai. Keylla
é liberal, liberada. “Isso não
é mulher!”. Motel na certa? Certo!
Noite de sábado. Adentram no ninho do fogo
da devassidão do amor.
Bebidas, toques, penumbra, beijos calientes, tudo
na lentidão da câmera. O garanhão
que não era lá de beber, após
alguns drinques fortes, foi apagando. “Amanhã
detono a potranca”, idealizava enquanto Orfeu
o embalava nos braços.
Pela manhã a cabeça dolorida e uma
irritação queimando-lhe o traseiro.
Maldita
hemorróidas, era só beber em demasia
que nascia uma flor na região a baixo das
costelas. Procurou a potranca, chamou e nada, silêncio
total. Repuxou o lençol a mão escorregou
na gosma. O preservativo estava cheio de coisa que
não saiu da coisa adormecida dele, que pegou
no sono. A dor... a camisa, Ui! Vênus, Keylla.
Keylla. Ai! Realmente, a Keylla não era mulher!!!
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Os Cabras da Peste
–
Cabra! vou te contar uma coisa – disse o homem
revelando nas feições e no sotaque
sua condição de nordestino. Puxou
as calças pela cinta, afundou a camisa dentro
do rego; já estava pronto para narrar um
“causo”. Olhou o amigo que balançava
um copo de cachaça e desandou a falar. Disse
que conheceu um tipo mequetrefe tão rato
que o próprio suor do maldito transmitia
a peste bubônica – Imagine os danos
da urina do peçonhento. Não é
que o bicho imitava em tudo um camundongo, Mandava
a paciência de qualquer um pro esgoto. E quando
conseguia o intento, chorava de rir. Para ele era
prazeroso ver a desgraça alheia – falava
o cabra, enquanto baforava a fumaça de seu
artesanal cigarro, coberto com palha e recheado
com fumo de corda.
Entre uma baforada e outra, a pausa para jogar cachaça
na goela para evitar o pigarro. Tudo seguido de
uma cara feia, que ficava mais horrenda quando levava
as mãos até a boca para secar a pinga
que vazava da boca, furada a bala. – Não
é que o maldito tentou desgraçar a
minha vida com um despacho, numa encruzilhada que
só o peçonhento do Capeta passa perto
pra ver quem é o próximo da lista.
Mas, a galinha preta, o charuto e a cachaça
eram tão chinfrim capenga, que o mau nem
chegou perto da minha pessoa. O Demo gosta de luxeza,
coisa fina. Felicidade do homem de fé é
que o Peçonhento não alcança
a gente, e o corpo fechado não deixa essas
tranqueiras entrar – falou, comemorando o
fracasso da empreitada com mais um gole de pinga.
Um outro próximo a ele, de ouvido na conversa
e ocupado com uma das mãos, cuja ponta da
peixeira tratava de afinar o papel para um cigarrinho
de fumo de corda demandou na questão –
Cabra! Se eu pego um rato como esse tal não
furo na bala não. Meto o aço nas tripas
para ver o sangue do canalha escorrer pelas mãos.
Fico sem lavar as patas pelo menos um mês.
Pois, quem tira esses bangalafumengas que só
fazem peso na terra, danando a vida dos outros,
ta fazendo um trabalho pra o nosso santo Padim Ciço.
Já despachei muito chibungo por coisa bem
menor – disse se calando no silêncio
do cigarro já pronto, levado à boca
fedorenta. “Trabalhava” para coronéis,
a quem tratava do serviço sujo: matar quem
ousasse a atravessar os planos e o caminho dos seus
patrões canalhas.
– Gostei da aprochegada do amigo na questão
e, sinceramente digo, por essa luz de Nossa Senhora
que me alumia, não tivesse eu na condição
de presidente da Sociedade Protetora dos Animais
fazia isso com o merdinha. Tenho que relevar e dar
bom exemplo. São os ossos desse ofício
penoso. Entrei a mando da mulher, depois que mataram
umas galinhas e uns cabritos dela. Mas, a patroa
“enviuvou” depois que enforcaram o nosso
cachorro de estimação numa árvore.
Dava mais valor ao cão que a mim. Fizeram
essa desgraceira com os bichos na intenção
de mandar o recado que a sangria era pra mim. Como
não é bom ficar de prosa e nem mandar
recado da Morte, nem avisei ela. Sem permissão
já fui passando ferro e fogo em todo mundo.
Depois da morte dos animais, fiz juramento de proteger
todos eles do bicho de duas patas. No fundo, sou
igual a minha mulher; prefiro um cão a um
homem. Ela mandou, e eu tratei de obedecer para
garantir lugar na cama. A Maria disse que alguém
tinha que fazer Justiça nessa terra de Nosso
Senhor Jesus Cristo, nesse mundão de meu
Deus. A companheira é devota de São
Lázaro, com quem divide a simpatia com São
Francisco – justificou, jogando mais cachaça
no bucho.
- E a conversa foi adentrando a noite, enchendo
de eco o bar rústico, escuro e catinguento,
onde as vozes eram regadas a ódio guardado,
ódio arregaçado, muita cachaça,
carne de sol, e crença em dias melhores;
enquanto os dias piores não cessavam.
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Crônica
de um vigarista crônico .gif)
Certa feita, um caboclo, desses: tipo faceiro, cheio
de ginga e de lábia, me parou nas ruas de
Sanpa, aonde a necessidade capital me leva a ir
com a obrigação de fazer uns “frila”,
para aumentar a diminuta grana jornalística.
Bom! Quer dizer mal! O mequetrefe desandou a falar.
– Meu amigo (nunca vi uma amizade nascer tão
rápido, acabava de “conhecer”
o bangalafumenga, que aparentemente, estava desejoso
de mandar bala num desabafo) – devo pra Deus
e o Mundo. Já não sei aonde arranco
grana para pagar minhas contas. O pessoal do SPC
já alertou: se eu chegar uns cinco metros
próximo de qualquer loja me tacam na cadeia,
tamanha é a minha capivara. Os que ficam
de olho nos ficha suja, estão grudados em
mim. To pego!
É! A vida financeira do fubica estava braba,
pra lá de Marráquexe, deduzi. E ele
continuou o falatório. – Acredita que
tentei fazer um acordo com o Demo, vender a minha
imprestável alma. Mas, acho que até
o Rabudo ao ver o tamanho e peso da bronca não
quis fechar negócio. Minha situação
é irremediável”, lamentou.
Caraca! Me assustei. Se o próprio Demo não
quis barganhar com o “infeliz”, o que
eu ali, na condição de simples transeunte
estava fazendo, me molhando naquela choradeira.
Penso com os meus botões, que tenho muito
mais coisa pra fazer que o Diabo. Sou, pretensiosamente,
do bem. Não tenho e nunca tive vocação
para padre. Mas, em plena rua paulistana me senti
num confessionário, ouvindo as auto-admoestações
de um pobre vivente, arrependido de ter “pilantrado”
uma centena de pessoas, que por falta de espaço,
tempo, e oportunidade, não fez mais vítimas.
E na parada obrigatória, ao entrar numa profunda
reflexão viu a desgraça feita Mundo
a fora, optando pela remissão do pecado capital
(no sentido financeiro da palavra).
O um, sete, um, me confidenciou que o seu lema era:
Se otário não existia malandro não
vivia. Na minha conduta – repreensível
– acredito no malandro honesto: o boêmio.
Toma umas e outras, cai na gandaia e reza Pai Nosso
e Ave Maria quando a ressaca braba o faz pensar
que vai dessa pra melhor, ou pior quem sabe. Por
isso, é que plagio o que ouvi de um sambista:
“Se malandro soubesse como é bom ser
honesto, seria honesto só por malandragem”.
Continuando a prosa, foi ledo engano de minha parte
cogitar que o ordinário estivesse caindo
no arrependimento – Olha! – disse ele,
ao que olhei e adiantei – O cara vai chorar
e pedir perdão a Deus pelas ações
de pilantrofia praticadas a esmo. Que nada! Necas
de pitipiriba. Não é que o vigarista
arrumou a fórmula de, além de pagar
suas contas, arrumar mais uma legião de otários
para sustentá-lo – Seguinte! –
voltou a falar – As eleições
estão aí. Com o que apreendi na universidade
da vida, mais os conhecimentos obtidos nas horas
de vadiagem nos bancos das praças acredito
que posso vender algumas ilusões e, conseguir
um mandato para me dar bem uns quatro anos. Traduzindo:
vou mamar nas tetas do Poder. Pago tudo, faço
novas dívidas e vou levando a vida, com os
trouxas me levando... caindo na minha rede.
– Esse é mais um grande janistroques,
patife,
canalha,
f.d.p., ruminei nas idéias. Mas, ingenuamente,
visualizei – O povo já está
vacinado contra esse tipinho de gente. Legal! Ele
foi pra um lado, provavelmente, dar um picaretada
em alguém. E eu fui à cata do “frila”,
aumentar a rasgada renda familiar. Pois bem, passou
o tempo, chegou e passou as eleições.
Como é de costume e hábito jornalístico
folheei alguns jornais, no objetivo de ler, ver
e avaliar os erros e “acertos políticos”.
Confesso, quase tive um AVC com a capa de um deles,
onde a foto estampava o pulha, que me parou nas
ruas de Sanpa, erguido à altura dos ombros
de dezenas de idiotas – que o levarão
nas costas por quatro anos. A manchete – Fulano
de Tal ganha estourado e é o novo prefeito
da cidade.