Jornal:
Tempo, Espaço e Sinônimo
Tempo.
A origem das coisas
(quando se trata de notícia isso é
quase que uma verdade absoluta) é o ponto
de partida
para a descoberta (vejam bem, mostrar o que estava
encoberto) daquilo que a coisa em si, na verdade
significa.
Zeitung. Journal.
Krant. Essas são algumas das palavras usadas
no mundo ocidental - e a este universo ainda estou
confinado - para fazer referência a um produto
impresso que periodicamente é publicado.
O alemão Zeitung
é uma combinação de tempo+ação.
O holandês Krant vem do francês courant
que pode significar corrente, que corre, portanto
algo que é pescado da corrente de um tempo.
Já a palavra francesa journal vem do latim
diurnalis que nada mais é do que diário
para nós de língua portuguesa ou para
os espanhóis. Aquele que sai todo dia com
aquilo que é pescado da corrente do tempo
como bem lembra o nome usado pelos holandeses.
Mas, além
disso, o que mais encanta no conceito francês,
espanhol e português da palavra é que
a mesma grafia preserva um outro significado esplêndido
- percebido, primeiramente, pelo escritor holandês
Cees Nooteboom: diário, além de jornal,
significa também o diário propriamente
dito: anotações feitas por adolescentes
e escritores.
Lembrando Jorge Luís
Borges, Nooteboom, delicia-se com a idéia
de que a junção de todos os jornais
do mundo, de um mesmo dia, signifique, enfim, o
diário do mundo - um relatório pescado
no rio do tempo que exprima o que aconteceu ontem,
enfim que ateste - por piores que sejam as notícias,
como costumam ser - que o mundo existe.
Talvez isso não
seja tão óbvio quanto pareça
à primeira vista. Cada vez mais englobado
pela imagem instantânea que a TV traz para
dentro de sua casa, o homem perde aos poucos o senso
para a distinção entre o que é
a realidade de ontem e o que é a virtualidade
da sua existência. Até os infográficos
de uma molécula, usados numa reportagem de
TV para explicar a Aids, confundem o que é
de fato uma molécula. A imagem criada passa,
de fato, a ser a molécula em si. A virtualidade
animada e configurada ao bel-prazer dos editores
faz da realidade uma dúvida premente na vida
do cidadão comum. A morte da princesa de
Gales passa a fazer parte da sua dor cotidiana de
existência, enquanto o vizinho morto em circustâncias
parecidas, também em acidente de carro, toma
corpo como algo corriqueiro da sua vida.
O jogo de ontem,
o capítulo de hoje da novela, a mudança
de partido de determinado político, a enchente
no outro lado do Planeta. São fatos que existem
e nada têm que ver com a ficção
de uma virtualidade cada vez mais crescente neste
mundo globalizado pela relações econômicas,
mas principalmente pela instantaneidade da comunicação.
O jornal, portanto,
é o espelho (Spiegel é uma das principais
publicações da Alemanha, assim como
o Mirror na Inglaterra) de um tempo contemporâneo
na existência do homem comum. Não é
a história (que os livros encarregam-se de
guardar), mas é o seu presente. Acordo e
me vejo e, se me vejo, posso adquirir conhecimento
e, se conheço, opino; se opino, argumento;
se argumento, reflito e, se reflito, existo. Se
existo, necessariamente, existo num tempo e o tempo
compreende o espaço.
Espaço
Para que o que aconteceu
ontem chegue até as pessoas e elas se vejam
no espelho da sociedade onde vivem, é necessário
um espaço, o jornal em si feito de papel
- no caso convencional - ou de maneira virtual na
Internet.
São espaços
reduzidos, com custos altíssimos, para a
publicação daquilo que expressa os
acontecimentos. E em nome da verdade, convencionou-se
retirar de qualquer relato sobre ontem a subjetividade
do relator como se isso, por acaso, pudesse ser
feito. Assim, de ontem, podemos ter acesso aos fatos
concretos que ocorreram, ao que determinado dirigente
tagarelou, ao que o sistema vai alterar. Mas, objetivamente,
nada aparece sobre a situação de impotência
do cidadão contemporâneo em relação
ao poder estabelecido que mantêm, cotidianamente,
sua alienação perante do mundo.
Assim, enquanto em
termos de tempo o jornal é aquele que atesta
a existência do homem neste mundo, em termos
de espaço é o local que evita de falar
da sua possibilidade de compreender o que acontece
hoje por causa do que foi decidido ontem.
Sem exprimir o que
é subjetivo nas questões objetivas
que relata todo dia, o jornal decreta a impossibilidade
de um indivíduo construir um destino ímpar
e coloca-o dentro de um aglomerado, a massa social,
onde toda iniciativa individual é inútil.
Assim, jornais como
"Folha..." nada mais significam - numa
analogia com a folha de uma árvore - do que
a tentativa de se renovar sempre para dizer não
só que o tempo passou (hoje já não
é ontem / agora é outono e não
mais primavera), mas que ainda há esperança.
Outros vão
mais longe, além de serem jornais, dizem-se
jornais de localidades específicas: "O
Estado de...".
Dentro deste panorama,
involuntariamente, pelo próprio sentido da
palavra, acabam por ser o reflexo do estado em que
determinada sociedade encontra-se naquele tempo
específico. Outros jornais, ainda, nascem
com a intenção de não só
ser o tempo e o espaço dos seus leitores,
mas também ser o seu guia. Este pode ser
o caso de Cruzeiro do Sul. Além de nome de
jornal, é - numa esfera mais universal -
uma constelação. Era pelo "cruzeiro
do sul" que os navegantes (antes das bússolas)
dirigiam-se pelos oceanos e mares. E, ao ser nome
de jornal, tem a pretensão de ser o guia
de seus leitores rumo ao conhecimento do que aconteceu
ontem.
Tempo +
Espaço
Nesta combinação
que determina o mundo, praticamente, surge o ponto
incial desta reflexão - colocada em epígrafe
deste texto: "Calma seo Ulysses, em branco
não sai".
Dita na década
de 50 por um velho impressor português que
comandava a oficina do jornal "Folha de S.
Paulo", nos tempos de Adabantino Gomes e Mário
Lobo, ao então jovem jornalista Ulysses Alves
de Souza, a frase perdura por décadas e vai
perdurar por todo o tempo em que o jornal seja um
espaço físico para o reflexo do que
aconteceu ontem.
Ela partiu da experiência
de uma autoridade (chefe da oficina) para acalmar
os nervos de um jovem que temia que um espaço
de terminado de uma página de jornal saisse
em branco (sem informação alguma)
porque faltou tempo para que um jornalista a concluísse.
Décadas mais
tarde, Ulysses (editor-chefe de um jornal do interior)
costumava dizer esta frase para acalmar o seu secretário
de redação nervoso com a mãe
que lhe telefonava na hora do fechamento. Afinal,
jornal é um processo industrial que nasce
de manhã e morre só quando leitor
apanha o jornal todo dia cedo para atestar que ele
e o mundo ainda existem.
Por isso, como ensinou
Álvaro Pacheco a Alberto Dines, que hoje
nos ensina: "o jornal não acaba, sempre
há um outro no dia seguinte. O êxito
ou fracasso de uma edição terminam
exatamente na edição posterior".
Sinônimo
Dentro desta relação
de tempo e espaço, é fundamental a
abordagem de um fato comum em todos jornais do mundo:
há uma linguagem jornalística composta
por imagens (fotografias, desenhos e infográficos)
e textos. O domínio da língua é
fundamental para a existência do jornal.
Qualquer manual de
redação (ou livros de técnicas
de entrevistas e reportagem) expressa que cada notícia/reportagem
tem uma palavra-chave. Nas informações
policiais, esta palavra é morte/acidente.
No jornalismo esportivo, a palavra-chave é
competição e assim por diante, mesmo
em informações menos definidas. O
papel do jornalista, ao relatar os acontecimentos
de ontem/hoje é conduzir sua história
em cima de palavras-chave que darão o clima
e o ambiente do acontecimento narrado.
O título deste
relato - praticamente todas as notícias de
um jornal têm título - é o reflexo
da palavra-chave do texto. E o título jornalístico,
necessariamente, é padronizado em espaços
rígidos onde deve dizer o que contém
cada história em 1 linha de 45 toques, 1
linha de 35 toques, 2 linhas de 28 toques, 2 linhas
de 22 toques, 2 linhas de 16 toques, 3 linhas de
13 toques.
Com outras variações,
essencialmente, os títulos tem este padrão.
Em alguns lugares, como o The New York Times, por
exemplo, os títulos de 3 linhas de 13 toques
devem formar o desenho de um trapézio. Isso
tudo sem deixar de expressar o que o texto diz e
num prazo limite.
Assim, fechamento
significa pôr em prática num limite
extremo uma série de decisões tomadas
ao longo da jornada que prepara o jornal para a
manhã seguinte. Portanto, uma dessas práticas,
é a colocação de títulos,
legendas e olhos em textos. Assim, faltando poucos
minutos para determinada página entrar em
seu processo industrial (fotocomposição,
confecção de chapa, impressão,
encarte e distribuição) é necessário
o preenchimento de um determinado espaço
num tempo extremamente delimitado.
Para fazer isso,
quem faz o título adquire uma prática,
intui imediatamente as palavras-chave do texto e
elabora os títulos.
E é precisamente
neste ponto que surge a temática dos sinônimos.
É freqüente
que a palavra-chave não caiba dentro do espaço
do título e o jornalista se vê obrigado
a colocar um sinônimo para dizer o que quer.
Mas, como ensina Santo Tomás de Aquino, são
sinônimas apenas as palavras que não
só indicam a mesma realidade (res), mas também
o mesmo aspecto (ratio). Por causa disso, muitas
vezes (muito mais do que o desejável) o jornalista
cai numa armadilha da ditadura do espaço.
Como o jornal fala
de acontecimentos que interessam ao Homem, o foco
central do que o jornal fala é Ele e sua
espécie. E, quando se fala de alguém,
fala-se de "coisas" que tem relação
com a sua honra e ao usar uma outra palavra que
caiba no espaço do título para exprimir
o que há para ser dito acaba-se, algumas
vezes, usando a palavra que corresponde somente
à res, realidade de um fato, mas não
o enfoca sob o mesmo aspecto.
Por isso, na maioria
dos processos judiciais envolvendo jornalistas e
jornais, o foco do reclamante está nos títulos,
legendas e olhos.
Dentro deste aspecto,
volta-se a questão chave deste artigo: não
importa se o leitor sabe como é feito o jornal,
mas o que é o jornal.
Para o leitor não
interessa se há pouco ou muito tempo para
se fazer um título; se há pouco ou
muito espaço para escrevê-lo.
O que interessa é
que o jornal chegue todos os dias no mesmo horário
e seja o reflexo da sua sociedade. Seja o atestado
da sua existência independente de qualquer
tempo, espaço ou palavras: para ele não
existe fechamento.